Estas lacunas presentes na sociologia podem ser sutilmente disfarçadas com estas concepções deterministas e redutivistas oriundas de certas interpretações de certos autores, ou podem abrir espaço para o diálogo com outras áreas de conhecimento provindas de matrizes teóricas diferentes, tais como a psicologia, a história, a economia, entre outros. Causando uma complementaridade entre estas escolas que é inerente a uma tentativa de compreensão abrangente da sociedade,está é uma atitude contrária a de alguns sociólogos e cientistas políticos, que assumem uma posição unilateral declarada e em nome desta teoria escolhida e de suas “leis” negam não somente o intercâmbio com outros campos além daqueles que as ciências sociais abrangem, mas também impedem o diálogo entre as escolas existentes dentro da sociologia e das ciências políticas, erguendo mais trincheiras na grande batalha retórica em que as ciências sociais se transformaram.

Se aceitarmos o caráter incompleto, insuficiente da sociologia, podemos então finalmente utilizar dela para compreender e solucionar problemas de fato. É uma equação simples: quanto menor a dogmatização da sociologia, maior a sua aplicabilidade.

Para esclarecer, usarei aqui um termo teórico que incomodará a muitos, o que tento explicar é uma espécie de “positivismo não-positivista”. Positivista porque ainda contemplo a possibilidade de uma utilidade das ciências sociais, considero a utilização empírica desse conhecimento; não-positivista, pois apesar deste empirismo, não as vejo como uma verdade absoluta, uma tentativa de capturar a “realidade”, ou frações desta. Positivista porque de uma certa maneira, estou defendo a sociologia como uma “ciência”, no que tange a sua utilidade (ainda que uma ciência diferente, pois seus métodos são mais dinâmicos e volúveis), não-positivista pois não vejo nenhuma ciência como um saber absoluto, erigido nos moldes de uma razão pura que existe por si só, mas sim como totalmente limitadas e insuficientes. E mesmo supondo que a proeza hercúlea de agregar todas as áreas de conhecimento fosse conseguida, estas mesmo atuando em conjunto ainda não bastariam para compreender na totalidade esta variável humana (o que de nenhuma maneira quer dizer que acredito em uma “liberdade total” de ação dos homens).

Sendo assim, utilizo estas perigosas palavras (ainda que com aspas), “ciência” e “positivismo”, para dizer que a sociologia não deve ser comparada a uma “ciência” para ser elevada a um status absoluto de conhecimento (coisa que alguns já o fazem), mas para expor suas deficiências e reafirmar sua utilidade. Não confundir com o ultrapassado esforço formal de tentar transformar a sociologia em uma ciência de fato .

Quanto mais se aprisiona a sociologia a conceitos estáticos, causando uma espécie de elevação desta a um pedestal imaginário, mais se alarga o abismo entre a teoria e prática. Não se trata aqui de estacionar o conhecimento sociológico, impedindo o desenvolvimento de suas teorias, mas sim de uma mudança nas bases nas quais estas estão sustentadas.

Os sociólogos cansam de apontar para o caráter “humano” dos cientistas (das áreas biológicas, matemáticas, etc.) e do conhecimento produzido por eles, mas esquecem de um fato extremamente óbvio de que eles mesmos também o são (humanos), e que seu conhecimento também está condicionado à sua visão de mundo como um agente inserido em um determinado contexto social / histórico, que seguiu um determinado percurso individual; e acabam erigindo um Deus Sociologia, para confrontar-se no Campo de Batalha das Idéias com outros Deuses apoiados em outros pontos de vista.

Para reformular as ciências sociais, seria necessário primeiro, mudar o âmago do pensamento ocidental, esta maneira de pensar enraizada em quase todos os exercícios de reflexão, implodir por dentro esta insistência em procurar e encontrar verdades, seja nas ciências, seja na(s) filosofia(s), ou no pensamento religioso.

(Continua)

Estas lacunas presentes na sociologia podem ser sutilmente disfarçadas com estas concepções deterministas e redutivistas oriundas de certas interpretações de certos autores, ou podem abrir espaço para o diálogo com outras áreas de conhecimento provindas de matrizes teóricas diferentes, tais como a psicologia, a história, a economia, entre outros. Causando uma complementaridade entre estas escolas que é inerente a uma tentativa de compreensão abrangente da sociedade.

O que pretende a sociologia e as ciências sociais?

Pretende interpretar, compreender, analisar a sociedade?

Sociedade? De que diabos isso trata?

Será um conceito abstrato existente apenas na cabeça dos homens ou uma força externa real que age e oprime?

Será possível que a sociologia consiga realmente compreender essa tal “sociedade”?

Poderia pesquisar e falar de vários conceitos e pontos de vista possíveis que tentam definir “sociedade”, mas para começar, vou ficar com a concepção da qual mais me identifico, a de Norbert Elias e seu “jogo”.

Simplificando, Elias usa o exemplo de um jogo de pôquer para metaforizar a sociedade, os jogadores fazem o jogo, pois sem eles este não existiria obviamente, mas o comportamento destes está limitado por certas regras específicas do jogo, mas que mesmo assim, não os condicionam totalmente a uma certa atitude pré-determinada, pode-se usar estratégias, blefar, ou até mesmo trapacear. O grande mérito de Elias neste ponto é a superação da dicotomia formal entre o indivíduo e a social.

Outra rápida observação aqui é necessária, pois acontece algumas vezes de pensadores sociais acabarem por acreditar em uma sociedade externa ao indivíduo, como se este fosse uma espécie de marionete sem consciência própria e autonomia que é apenas determinado pela sociedade. Este tipo de behaviorismo social (quase esotérico) pode ser extraído de certos pensadores clássicos, tais como Marx e o materialismo histórico dialético e Durkheim com seu fato social, dependendo (e muito!) da leitura que se faz deles.

Nietzche matou o livre-arbítrio, e assim faz a ciência social normativista, ao alegar uma super-determinação social sobre o indivíduo, e também os biólogos e psicanalistas radicais, com suas também super-determinações biológicas e psicanalíticas. No extremo oposto se localiza o liberalismo, o existencialismo de Sartre, e certa parte do pensamento cristão,  pregando uma total liberdade de ação humana.

Elias supera esta discussão ao falar que existe uma autonomia do indivíduo sim, mas que esta é totalmente condicionada e limitada pelos contextos político, econômico, cultural, etc; enfim, social. Se estou preso em uma cela, tenho a “liberdade” de escolher entre sentar e olhar para o teto, ou deitar e dormir, ou ler um romance se tiver um em mãos, ou me suicidar; mas isso não muda o fato de que meu espaço está totalmente limitado pelas grades e paredes, e de que não lerei se não houver nenhum livro na cela.

Isso é o mais longe que a sociologia consegue chegar, pois… Como ir além? Como estudar e teorizar sobre esta autonomia e os limites dela envoltas em densas névoas? Como entender e compreender em sua totalidade as variadas veredas que as escolhas tomadas pelos homens seguem, decisões estas tomadas dentro de um mar de possibilidades (ainda que circunscritas socialmente)? Se formos a fundo de nossas indagações, chegamos a este caminho sem saída.

Argumenta-se que a sociologia não se propõe a explicar isso.

Bom, estão certos.

(Continua)

Idéias

Junho 2, 2009

Se idéias, pontos de vista, ideologias e opiniões  fossem matéria,

eu me esforçaria para ser o vácuo entre eles.

Atiro estas palavras ao vento talvez para ninguém ou talvez apenas para mim.

Entre andanças, tropeços, descobertas, redescobertas, sigo meu caminho.

Cometi o erro de cair em um niilismo mal direcionado, me entregando a uma certeza em um vazio que podia ser facilmente  confundido com tantas outras crenças das quais eu desprezava ou tentava desprezar.

Sendo sucinto, no momento acredito que é necessário um esforço para a  desmistificação das instituições e dos valores, mas não para uma destruição destas. Agora considero impossível uma eliminação total delas de nosso ser, pois somos onde nascemos, somos as pessoas que convivemos, os fatos que nos apresentam; penso que acreditar que podemos simplesmente extirpar todos estes valores de nossa consciência, nos isolando em nós mesmos em uma ilha de ceticismo chega a ser ingênuo.

É uma conclusão relativamente fácil a se chegar mas que descobri ser um tanto árdua na prática, algumas vezes me fazendo cair em uma amargura que agora vejo desnecessária.

Sendo assim, o meu ideal é o de desmistificar e compreender, e não desmistificar e desprezar.

Parece que ser amoral acaba se transformando em uma moralidade, mas mesmo assim elejo essa moral da descrença como a menos danosa para mim mesmo, mesmo que esta exija uma certa cautela.

Se quero amar, devo fazê-lo, mesmo sabendo que este amor não vai dar uma significação à minha vida, que é construído, que não existe por si só, que não é etéreo, não é eterno, que este no máximo vai se encerrar junto com o lacre de meu caixão; se tenho noção disso, aproveitarei esse amor de fato. Se quero apreciar arte, devo fazê-lo também, mesmo sabendo de seu caráter de mercadoria ideológica e de que qualquer esforço para elevá-la a um plano superior é pura bobagem e nonsense; talvez assim, sem uma apreciação estética rígida, seja possível entender a obra como ela é de fato, pois  já não há o que compreender.

E assim por diante.

Quero

Abril 3, 2009

Não quero  Deus, quero  fé.

Não quero segurança, quero compainha.

Não quero  artes, quero inspiração.

Não quero razão, quero opiniões.

Não quero seu amor, quero você.

Xuxa e a barriga de 95

Março 4, 2009

Esse blog anda sério demais.

O Renato eu já sabia, mas a Xuxa…

MUITO fanfarrona.

Manifesto Shuffle – Parte 3

Dezembro 29, 2008

Grande parte do que é chamado sofrimento é fruto destas duas bases, o apego desordenado a abstrações temporais (passado e futuro) e a incompreensão dos sentimentos que nos afetam.

Ao nos depararmos com estes afetos decorridos de lembranças e imaginações do futuro (tais quais o medo de perder algo ou alguém, o pavor da morte, prendimento a coisas que se perderam, arrependimento por algo que fizemos ou deixamos de fazer, entre tantos outros), tendemos a acreditar que estes são revestidos de uma inevitabilidade absoluta e inviolável, como se não fossem meras criações incutidas em nosso consciente e alimentada apenas por nós mesmos.

Toda esta negatividade tende a ser eliminada junto com a anulação do apego ao tempo.

Devemos perceber o presente como vivo em si mesmo independente de antes ou depois, só assim para potencializar de fato a sucessão seguida de vários presentes que compões uma vida.

Esta afeição ao presente é o que significa aleatoriedade do qual se discute neste texto.

Manifesto Shuffle – Parte 2

Dezembro 27, 2008

Deixa-se claro que o planejamento repudiado aqui pela aleatoriedade proposta se trata daquele que é rígido e extremamente pragmático. De fato, não nos é possível evitar traçar uma rota para nosso dia, porém ao pensarmos esta devemos fazê-lo na maneira mais abstrata e impontual possível. Por exemplo, se devo terminar tal trabalho neste determinado dia, não marque a hora para almoçar, terminar de comer, começar o trabalho, terminar, descansar e assim por diante; siga o fluxo natural do dia até chegar a hora de trabalhar, que chegará sem a necessidade de saber o momento certo de cada coisa.

Isto consiste fundamentalmente em um esvaziamento sentimental de nós mesmos no curso de nossos dias. Mais um exemplo: tendemos a caminhar pelas ruas já antecipando aonde vamos, como vai ser quando chegarmos, quanto falta até lá, o que acontecerá à noite, para onde sair mais tarde, isso quando não pensamos nas coisas que aconteceram na noite passada, entre tantas outras milhares de distrações possíveis. Estes pensamentos trazem consigo sentimentos tais como ansiedade, arrependimento, nervosismo, angústia, etc; sendo assim, acabamos por nos consumir com estas desagradáveis sensações associadas a fatos que já passaram ou ainda nem aconteceram.

A supressão desta relação de dominação que infligimos a nós mesmos através destes tipos de sofrimento acabam sendo causa e consequência do randomismo proposto, já que quando este é adotado o curso de nosso dia pode ser transfigurar num único segundo para outro totalmente diferente do planejado inicialmente, evitando-se assim o apego desmedido a antecipações e perspectivas de realizações futuras, ao mesmo tempo em que, se convivemos com a constante possibilidade de ter o nosso rumo desviado, afetos como o remorso e arrependimento serão fundamentalmente excluídos.

Assim haverá um desligamento das abstrações mais nocivas ao homem, o “passado” e o “futuro”.

(Continua)

Manifesto Shuffle – Parte 1

Dezembro 19, 2008

Existe apenas uma maneira de não sucumbir à maçante e torturante rotina de nossos dias, e esta é a aleatoriedade incondicional.

Esta peculiar cartilha de existência consiste-se em um único e simplório mandamento:

“Não planejarás.”

Destas duas palavras extraí-se  todo o corpo de uma maneira de pensar, agir, ser.

Ao evitar o planejamento cartesiano (que acabamos por nos acostumar) que traçamos todos os dias ao acordar, uma infinitude de possibilidades brotam à nossa frente.

(Continua)

Para começar, o personagem deste livro, o jovem de sobrenome Mersault, é um pessoa totalmente amoral.

Quando uso este termo, não o utilizo carregando-o das significâncias de cunho negativo que agregam esta palavra, como aquele que não possui moral como sendo uma pessoa sem leis, pérfida, ruim, enfim, escrota. O que eu quero dizer é que Mersault, desde o início do livro, é revelado como um jovem totalmente desvinculado de qualquer ligação orgânica a algum valor, seja o amor (pela mãe ou pela amante), religião, ou leis instituídas pelos homens.

Reage com singular indiferença à morte da mãe, e do mesmo jeito toca sua vida afetiva com Marie. O amigo que faz no decorrer  da narrativa pode-se sim, chamar de um cara escroto, mas o caráter ou o que pensam dele de nada diz à Mersault, em nenhum segundo este se questiona: “não vou ser amigo dessa pessoa por ele espancar mulheres e ser um agiota ” ou algo parecido. Quando mata o árabe, não o faz motivado por ódio, vingança, cólera, rancor, anti-semitismo, dor de corno ou algo que o valha, apenas o faz, não à tôa, mas simplesmente se deixa levar por um fluxo dos acontecimentos quase metafísico.

Justamente por tudo isso e pela sua sinceridade, talvez fosse mais fácil um veredicto positivo para ele em seu julgamento, já que a frieza com a morte da mãe, seu círculo de amigos “duvidoso” e sua resposta no mínimo pitoresca para uma pergunta no tribunal sobre as motivações do crime (respondeu que o forte sol o levara ao assassinato) pesaram contra nosso (anti)herói.

Seu descaso pelas instituições, moral, religião, amizade, amor, etc. se volta contra ele e o arrebata fatalmente. Em todas as esferas de sua vida pessoal o promotor de seu caso encontra vestígios deste desprezo, este que o acusa, entre outras coisas, de “ter enterrado a mãe com coração um de criminoso”.

Mas eis que em sua cela, ao ouvir a sirene que anunciava o comprimento de sua sentença, no parágrafo final do livro, Mersault é assaltado por uma súbita e lúdica felicidade, uma calmaria e forte sentimento de compreensão.

Na minha opinião, Mersault, nos momentos finais de sua vida, paradoxalmente naquele cubículo de poucos metros quadrados e no limiar de sua morte, encontrou enfim, a liberdade que todos procuramos. Deparou-se com seu destino despido de esperanças falsas e sentidos inventados à vida, tais como uma vida posterior à morte, uma eternidade a nos esperar; e aceitou finalmente o grande absurdo da nossa existência, esta sem significado nenhum independente do esforço que fazemos para fugir deste fato cru, que é a inevitabilidade de nossa futura inexistência, nos refugiando em narrativas criadas por e para homens, como se fossem verdades absolutas e inalienáveis, tais como os já citados várias vezes aqui: Deus, Estado, Amor; e outros como: Arte, Democracia, Socialismo, Dinheiro, Ideais… Como se a vida valesse a pena por uma dessas coisas.

Não vale.

E só a aceitação deste grande e insolúvel absurdo que traz o verdadeiro vôo livre da existência.

A pergunta é, sua amoralidade é pré-requisito para encontrar esta liberdade, ou esta veio na simples e lógica conscientização da mortalidade de um condenado à morte? Afinal, todos estamos sujeitos à ela, não importa se somos prisioneiros do corredor da morte ou não, temos nossas sentenças muito bem definidas, só não temos o privilégio de Mersault de conhecê-la.