
Para começar, o personagem deste livro, o jovem de sobrenome Mersault, é um pessoa totalmente amoral.
Quando uso este termo, não o utilizo carregando-o das significâncias de cunho negativo que agregam esta palavra, como aquele que não possui moral como sendo uma pessoa sem leis, pérfida, ruim, enfim, escrota. O que eu quero dizer é que Mersault, desde o início do livro, é revelado como um jovem totalmente desvinculado de qualquer ligação orgânica a algum valor, seja o amor (pela mãe ou pela amante), religião, ou leis instituídas pelos homens.
Reage com singular indiferença à morte da mãe, e do mesmo jeito toca sua vida afetiva com Marie. O amigo que faz no decorrer da narrativa pode-se sim, chamar de um cara escroto, mas o caráter ou o que pensam dele de nada diz à Mersault, em nenhum segundo este se questiona: “não vou ser amigo dessa pessoa por ele espancar mulheres e ser um agiota ” ou algo parecido. Quando mata o árabe, não o faz motivado por ódio, vingança, cólera, rancor, anti-semitismo, dor de corno ou algo que o valha, apenas o faz, não à tôa, mas simplesmente se deixa levar por um fluxo dos acontecimentos quase metafísico.
Justamente por tudo isso e pela sua sinceridade, talvez fosse mais fácil um veredicto positivo para ele em seu julgamento, já que a frieza com a morte da mãe, seu círculo de amigos “duvidoso” e sua resposta no mínimo pitoresca para uma pergunta no tribunal sobre as motivações do crime (respondeu que o forte sol o levara ao assassinato) pesaram contra nosso (anti)herói.
Seu descaso pelas instituições, moral, religião, amizade, amor, etc. se volta contra ele e o arrebata fatalmente. Em todas as esferas de sua vida pessoal o promotor de seu caso encontra vestígios deste desprezo, este que o acusa, entre outras coisas, de “ter enterrado a mãe com coração um de criminoso”.
Mas eis que em sua cela, ao ouvir a sirene que anunciava o comprimento de sua sentença, no parágrafo final do livro, Mersault é assaltado por uma súbita e lúdica felicidade, uma calmaria e forte sentimento de compreensão.
Na minha opinião, Mersault, nos momentos finais de sua vida, paradoxalmente naquele cubículo de poucos metros quadrados e no limiar de sua morte, encontrou enfim, a liberdade que todos procuramos. Deparou-se com seu destino despido de esperanças falsas e sentidos inventados à vida, tais como uma vida posterior à morte, uma eternidade a nos esperar; e aceitou finalmente o grande absurdo da nossa existência, esta sem significado nenhum independente do esforço que fazemos para fugir deste fato cru, que é a inevitabilidade de nossa futura inexistência, nos refugiando em narrativas criadas por e para homens, como se fossem verdades absolutas e inalienáveis, tais como os já citados várias vezes aqui: Deus, Estado, Amor; e outros como: Arte, Democracia, Socialismo, Dinheiro, Ideais… Como se a vida valesse a pena por uma dessas coisas.
Não vale.
E só a aceitação deste grande e insolúvel absurdo que traz o verdadeiro vôo livre da existência.
A pergunta é, sua amoralidade é pré-requisito para encontrar esta liberdade, ou esta veio na simples e lógica conscientização da mortalidade de um condenado à morte? Afinal, todos estamos sujeitos à ela, não importa se somos prisioneiros do corredor da morte ou não, temos nossas sentenças muito bem definidas, só não temos o privilégio de Mersault de conhecê-la.