Acordou e sentiu o balanço do ônibus, já havia escurecido.
Olhou pela janela e notou a falta de iluminação na rodovia, a visão dela a percorrer seus olhos remeteu-lhe ao tempo em que contemplava amedontrando aquela mesma escuridão, mas do lado de fora desta, na rua iluminada que cortava esta estrada e que ficava a alguns passos de sua antiga casa.
Pelo mérito de sua lerdeza aliada à intransigência do motorista, acabou por saltar bem depois de seu destino inicial, a algumas quadras da rua no qual deveria ter descido. Logo após de ter pego sua mochila e do ônibus ter prosseguido seu curso lhe abandonando à solidão daquela rua mal iluminada (mas já não mais imersa em escuridão total), sentiu a primeira gota da primeira chuva que se anunciava naquela sua breve estada ali.
Se deixava tocar pelas chuvas de quase todos os lugares que conheceu, pois acreditava que cada cidade possui sua própria chuva e os sentimentos que ela traz consigo.
Desde pequeno admirava-se com a daquele lugar, nem conseguia lembrar de todos os pequenos (e agora agradáveis) momentos que passou ou coberto por ela, ou protegido e amparado enquanto a contemplava. Aquela chuva acarretava uma brusca e muito intensa metamorfose no ambiente. Sem dar nenhum sinal, invadia o céu, atacava com suas possantes partículas de água o asfalto, as calçadas, os telhados das casas, as almas desavisadas, as antenas parabólicas, os carros, os postes (acesos em pleno luz do dia); interrompia o fluxo de nossos dias já ajustados àquele intervalo forçado e quase diário de nosso cotidiano. Carregava com ela uma infinitude de sensações, proporcionadas por aquele céu cinza, aquele cheiro de terra molhada que antecedia o da água vaporizada pelo calor do asfalto, e por um barulho uníssono das grossas gotas de chuva farfalhando nas folhas das árvores (toda aquela aquarela esverdeada que cercava sua rotina nos dias de criança era, sem dúvida, um outro fator do qual sentia intensas saudades).
Após constatar que era impossível chegar à sua estadia de um outro jeito que não fosse absolutamente encharcado, desistiu de correr, e conformado, começou a caminhar sem nenhuma pressa, tentando sentir cada uma das milhares de gotas a se chocar no seu corpo. Chegou a um ponto de ônibus onde se abrigou e continuou a se deliciar com o cair da chuva e com tudo que ela o fazia lembrar e sentir.
Quando um garoto de bicicleta apareceu a caminho de seu curso noturno e estacionou neste ponto, juntou-se ao recém-chegado à cidade na espera do fim daquela chuva. Trocaram amenidades e, ao ver que a chuva se tornava menos torrencial, o estudante saiu e aconselhou o seu companheiro de abrigo a tomar cuidado, pois já havia sido assaltado quatro vezes ali, naquele horário.
