Setembro 3, 2008...8:43 pm

Dois Finais (E uma continuação, por enquanto)

Ir aos comentários

1912

Foi inaugurado em Belém um cinema de rua, bem ali, na Campina, em frente à Praça da República, de frente para o majestoso Theatro da Paz.

Com suas lotadas sessões e sua luxuosa decoração (que incluía detalhes de mármore e lustres de cristal), o Cine Olympia fazia das noites daqueles burgueses ébrios pela fartura econômica do ciclo da borracha, um verdadeiro esplendor republicano.

16/02/2006

Não costumava ir ao cinema às quintas-feiras, pois era mais barato às quartas (quando aproveitava para enfrentar a chuva em sua solitária procura por filmes pouco requisitados), e quando tinha dinheiro preferia ir aos finais de semana (quando gozava de companhia).

Mas lá estava ele, naquela enorme fila para ingressos. Era a última sessão daquele dia, e talvez fosse a última que iria ver naquele recanto, pois já estava selada a sentença daquele cinema, que após 94 anos de serviços prestados à sétima arte teria sua porta de vidro fechada por tempo indefinido, até Deus sabe quando (Ele provavelmente estava decepcionado, pois a venda do local para uma igreja universal havia sido descartada pelo proprietário).

Sobre sua cabeça repousavam as finas gotas daquela fraca garoa, que acariciava os cabelos de todos que não conseguiam se aglutinar no abrigo da entrada do cinema.

Passava pela sua consciência remotas lembranças de seus momentos naquela gigantesca sala escura: dos filmes que lá assistiu e gostou (os que odiou também); da vez que faltou aula para prestigiar a estréia do último episódio de sua saga de ficção científica favorita; e principalmente, recordava-se, com certa melancolia até, da imagem de si mesmo sendo levado até lá no ápice de sua infância pelo seu paciente pai, que abria mão de seu gosto pessoal para acompanhar o filho e seus pequenos companheiros em espalhafatosas viagens hollywoodianas.

Quando se encontrara com seus amigos para ir presenciar aquela histórica sessão cometeu o erro de achar que seria fácil conseguir um ingresso na hora, mas logo viu que enganou-se redondamente. Ao chegar, se deparou com um grande tumulto e uma  forte perspectiva de fracasso, que acabou por se concretizar naquele momento em que o funcionário surgiu de dentro da sala e dirigiu-se para os inconformados sem-ingresso:

-”A sessão está encerrada!”

A desolação se assolou sobre aquela pequena massa, que logo começou a esbravejar, e num lampejo coletivista esboçou uma pequena revolução cinéfila com cantos e palavras de ordem. Para contornar esta situação o gerente fez o que um bom político-estrategista faria, consumiu o ato revolucionário antes que o povo a fizesse.

E assim, a porta foi incondicionalmente aberta, para o delírio de todos.

Correu com seus amigos, garantiu um bom lugar no meio do corredor (já que todos os lugares oficiais estavam ocupados), e assistiu o cansativo filme um pouco incomodado com o frio que sua roupa parcialmente molhada e o ar-condicionado lhe presentearam.

2008

O Cine Olympia, agora espaço municipal Cine Olímpia, defende o título de cinema de rua a mais tempo em atividade no país. E em algumas madrugadas sua majestosa sala exibe sessões gratuitas de filmes franceses, abrigando jovens universitários que parecem não se incomodar com o cheiro dos indigentes que os acompanham em sua empreitada noturna.

*01/09/2008 – Rio de Janeiro

Neste dia, às 00:00, foi rodado “Trinta Anos esta Noite” de Louis Malle, no Cine Paissandu.

O famoso cinema de rua remanescente da década de 60 completaria 48 anos de atividade em dezembro, porém terá suas sessões suspensas por tempo indeterminado, tendo como o (por enquanto) último e derradeiro suspiro aquela lotada sessão dupla de Malle.

1 Comentário

  • Sensacional! Eu vivi essa história como figurante, vi de fora a tristeza de um histórico cinema fechar as portas… meu último filme lá foi nada mais nada menos que “Star Wars – Ep. 3″


Deixe uma resposta