Dezembro 27, 2008...9:34 pm

Manifesto Shuffle – Parte 2

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Deixa-se claro que o planejamento repudiado aqui pela aleatoriedade proposta se trata daquele que é rígido e extremamente pragmático. De fato, não nos é possível evitar traçar uma rota para nosso dia, porém ao pensarmos esta devemos fazê-lo na maneira mais abstrata e impontual possível. Por exemplo, se devo terminar tal trabalho neste determinado dia, não marque a hora para almoçar, terminar de comer, começar o trabalho, terminar, descansar e assim por diante; siga o fluxo natural do dia até chegar a hora de trabalhar, que chegará sem a necessidade de saber o momento certo de cada coisa.

Isto consiste fundamentalmente em um esvaziamento sentimental de nós mesmos no curso de nossos dias. Mais um exemplo: tendemos a caminhar pelas ruas já antecipando aonde vamos, como vai ser quando chegarmos, quanto falta até lá, o que acontecerá à noite, para onde sair mais tarde, isso quando não pensamos nas coisas que aconteceram na noite passada, entre tantas outras milhares de distrações possíveis. Estes pensamentos trazem consigo sentimentos tais como ansiedade, arrependimento, nervosismo, angústia, etc; sendo assim, acabamos por nos consumir com estas desagradáveis sensações associadas a fatos que já passaram ou ainda nem aconteceram.

A supressão desta relação de dominação que infligimos a nós mesmos através destes tipos de sofrimento acabam sendo causa e consequência do randomismo proposto, já que quando este é adotado o curso de nosso dia pode ser transfigurar num único segundo para outro totalmente diferente do planejado inicialmente, evitando-se assim o apego desmedido a antecipações e perspectivas de realizações futuras, ao mesmo tempo em que, se convivemos com a constante possibilidade de ter o nosso rumo desviado, afetos como o remorso e arrependimento serão fundamentalmente excluídos.

Assim haverá um desligamento das abstrações mais nocivas ao homem, o “passado” e o “futuro”.

(Continua)

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