Dezembro 29, 2008

Manifesto Shuffle – Parte 3

Grande parte do que é chamado sofrimento é fruto destas duas bases, o apego desordenado a abstrações temporais (passado e futuro) e a incompreensão dos sentimentos que nos afetam.

Ao nos depararmos com estes afetos decorridos de lembranças e imaginações do futuro (tais quais o medo de perder algo ou alguém, o pavor da morte, prendimento a coisas que se perderam, arrependimento por algo que fizemos ou deixamos de fazer, entre tantos outros), tendemos a acreditar que estes são revestidos de uma inevitabilidade absoluta e inviolável, como se não fossem meras criações incutidas em nosso consciente e alimentada apenas por nós mesmos.

Toda esta negatividade tende a ser eliminada junto com a anulação do apego ao tempo.

Devemos perceber o presente como vivo em si mesmo independente de antes ou depois, só assim para potencializar de fato a sucessão seguida de vários presentes que compões uma vida.

Esta afeição ao presente é o que significa aleatoriedade do qual se discute neste texto.

Dezembro 27, 2008

Manifesto Shuffle – Parte 2

Deixa-se claro que o planejamento repudiado aqui pela aleatoriedade proposta se trata daquele que é rígido e extremamente pragmático. De fato, não nos é possível evitar traçar uma rota para nosso dia, porém ao pensarmos esta devemos fazê-lo na maneira mais abstrata e impontual possível. Por exemplo, se devo terminar tal trabalho neste determinado dia, não marque a hora para almoçar, terminar de comer, começar o trabalho, terminar, descansar e assim por diante; siga o fluxo natural do dia até chegar a hora de trabalhar, que chegará sem a necessidade de saber o momento certo de cada coisa.

Isto consiste fundamentalmente em um esvaziamento sentimental de nós mesmos no curso de nossos dias. Mais um exemplo: tendemos a caminhar pelas ruas já antecipando aonde vamos, como vai ser quando chegarmos, quanto falta até lá, o que acontecerá à noite, para onde sair mais tarde, isso quando não pensamos nas coisas que aconteceram na noite passada, entre tantas outras milhares de distrações possíveis. Estes pensamentos trazem consigo sentimentos tais como ansiedade, arrependimento, nervosismo, angústia, etc; sendo assim, acabamos por nos consumir com estas desagradáveis sensações associadas a fatos que já passaram ou ainda nem aconteceram.

A supressão desta relação de dominação que infligimos a nós mesmos através destes tipos de sofrimento acabam sendo causa e consequência do randomismo proposto, já que quando este é adotado o curso de nosso dia pode ser transfigurar num único segundo para outro totalmente diferente do planejado inicialmente, evitando-se assim o apego desmedido a antecipações e perspectivas de realizações futuras, ao mesmo tempo em que, se convivemos com a constante possibilidade de ter o nosso rumo desviado, afetos como o remorso e arrependimento serão fundamentalmente excluídos.

Assim haverá um desligamento das abstrações mais nocivas ao homem, o “passado” e o “futuro”.

(Continua)

Dezembro 19, 2008

Manifesto Shuffle – Parte 1

Existe apenas uma maneira de não sucumbir à maçante e torturante rotina de nossos dias, e esta é a aleatoriedade incondicional.

Esta peculiar cartilha de existência consiste-se em um único e simplório mandamento:

“Não planejarás.”

Destas duas palavras extraí-se  todo o corpo de uma maneira de pensar, agir, ser.

Ao evitar o planejamento cartesiano (que acabamos por nos acostumar) que traçamos todos os dias ao acordar, uma infinitude de possibilidades brotam à nossa frente.

(Continua)

Dezembro 12, 2008

O Estrangeiro – Albert Camus

Para começar, o personagem deste livro, o jovem de sobrenome Mersault, é um pessoa totalmente amoral.

Quando uso este termo, não o utilizo carregando-o das significâncias de cunho negativo que agregam esta palavra, como aquele que não possui moral como sendo uma pessoa sem leis, pérfida, ruim, enfim, escrota. O que eu quero dizer é que Mersault, desde o início do livro, é revelado como um jovem totalmente desvinculado de qualquer ligação orgânica a algum valor, seja o amor (pela mãe ou pela amante), religião, ou leis instituídas pelos homens.

Reage com singular indiferença à morte da mãe, e do mesmo jeito toca sua vida afetiva com Marie. O amigo que faz no decorrer  da narrativa pode-se sim, chamar de um cara escroto, mas o caráter ou o que pensam dele de nada diz à Mersault, em nenhum segundo este se questiona: “não vou ser amigo dessa pessoa por ele espancar mulheres e ser um agiota ” ou algo parecido. Quando mata o árabe, não o faz motivado por ódio, vingança, cólera, rancor, anti-semitismo, dor de corno ou algo que o valha, apenas o faz, não à tôa, mas simplesmente se deixa levar por um fluxo dos acontecimentos quase metafísico.

Justamente por tudo isso e pela sua sinceridade, talvez fosse mais fácil um veredicto positivo para ele em seu julgamento, já que a frieza com a morte da mãe, seu círculo de amigos “duvidoso” e sua resposta no mínimo pitoresca para uma pergunta no tribunal sobre as motivações do crime (respondeu que o forte sol o levara ao assassinato) pesaram contra nosso (anti)herói.

Seu descaso pelas instituições, moral, religião, amizade, amor, etc. se volta contra ele e o arrebata fatalmente. Em todas as esferas de sua vida pessoal o promotor de seu caso encontra vestígios deste desprezo, este que o acusa, entre outras coisas, de “ter enterrado a mãe com coração um de criminoso”.

Mas eis que em sua cela, ao ouvir a sirene que anunciava o comprimento de sua sentença, no parágrafo final do livro, Mersault é assaltado por uma súbita e lúdica felicidade, uma calmaria e forte sentimento de compreensão.

Na minha opinião, Mersault, nos momentos finais de sua vida, paradoxalmente naquele cubículo de poucos metros quadrados e no limiar de sua morte, encontrou enfim, a liberdade que todos procuramos. Deparou-se com seu destino despido de esperanças falsas e sentidos inventados à vida, tais como uma vida posterior à morte, uma eternidade a nos esperar; e aceitou finalmente o grande absurdo da nossa existência, esta sem significado nenhum independente do esforço que fazemos para fugir deste fato cru, que é a inevitabilidade de nossa futura inexistência, nos refugiando em narrativas criadas por e para homens, como se fossem verdades absolutas e inalienáveis, tais como os já citados várias vezes aqui: Deus, Estado, Amor; e outros como: Arte, Democracia, Socialismo, Dinheiro, Ideais… Como se a vida valesse a pena por uma dessas coisas.

Não vale.

E só a aceitação deste grande e insolúvel absurdo que traz o verdadeiro vôo livre da existência.

A pergunta é, sua amoralidade é pré-requisito para encontrar esta liberdade, ou esta veio na simples e lógica conscientização da mortalidade de um condenado à morte? Afinal, todos estamos sujeitos à ela, não importa se somos prisioneiros do corredor da morte ou não, temos nossas sentenças muito bem definidas, só não temos o privilégio de Mersault de conhecê-la.

Setembro 23, 2008

Ponto de Ônibus

Levantou da rua, ajeitou sua roupa, reergueu a bicicleta, adquirida a duas semanas, agora estreada com uns arranhões e o pneu um pouco empenado.

Sentia uma ligeira ardência (na verdade, não sabia dizer se era ligeira ou não, já que era primeira vez que experimentava a sensação, portanto não possuía um referencial). Checou seu joelho, estava com uma ferida aberta, não muito grande, do tamanho de duas uvas, focou no vermelho de si mesmo e se divertiu a cutucando e experimentando a sensação no limiar entre a dor e o prazer.

Depois se lembrou dos amigos, olhou ao redor, aonde estariam? Da última vez que os viu tinham virado na esquina, velozes como águias em suas bicicletas também relativamente novas. Foram eles a distração que o fez perder o controle e cair ali, na frente daquele poste naquela esquina. Guiou sua bicicleta gentilmente até o ponto de ônibus, a equilibrou na calçada e sentou-se ao lado de um jovem casal que conversava prazerosamente. Não reservava a mínima atenção a eles, estava perdido em divagações que não saberia explicar se o pedissem, sobre como poderia ser ele tão lento em relação a seus amigos, sobre como aquela menina, que ainda não descobrira o nome, e que sentava a duas cadeiras à frente e três a esquerda despertava uma gama de milhões de sentimentos ligados entre si, como se todos em sua pluralidade fossem um só. Um paradoxo que se esforçava para desvendar enquanto carros passavam a sua frente e o cachorro da casa ao lado dava tudo de si para espantar o temido invasor de seu território (na verdade apenas um caminhante ocasional). Havia acabado de estabelecer uma meta para descobrir o nome daquela menina quando os dois que estavam ao seu lado levantaram para se acomodar na bicicleta deles (o homem no banco, a mulher no varão) se preparando para partir.

Então se lembrou do joelho ferido, o olhou novamente e sorriu, era bacana, será que deixaria uma cicatriz? Seu joelho não era mais um joelho intocado, liso, sem feridas, sem memórias, pelo menos agora tinha uma estória para contar para seus amigos, eles sempre tem ótimas estórias, agora ele também tinha, e ainda teria uma prova do acontecido impresso em seu joelho não mais virgem. Estava esperando os amigos, sabia que sentiriam sua falta e voltariam, sabia que eles passariam na frente daquele ponto, já havia percebido que ali naquele lugar era sempre assim, as pessoas sempre se encontravam, cedo ou tarde.

De repente se lembrou de um pensamento que não deveria lembrar, pois este arruinou toda a sua paz de espírito, trouxe a tona um turbilhão de ansiedade e nervosismo, pois não tinha feito o dever de casa. Havia deixado para depois do almoço, mas o chamado dos amigos logo após sua refeição o fez abstrair e partir para a rua. Como deixara isto acontecer? Esquecera totalmente da sua obrigação diária quase religiosa. Deveria correr, pois estava perto da hora de seu pai de chegar, e deveria terminar o exercício rapidamente para a inspeção paterna das 6 e meia. Daria tempo se fosse para casa naquele exato momento, nem um segundo deveria ser desperdiçado, nada o distrairia, nada seqüestraria sua atenção daqueles problemas de matemática, nem mesmo os seus desenhos animados, que começavam todo dia as 6 e acompanhava fervorosamente, agora que sua tv também era a cabo, como a dos seus amigos.

Setembro 12, 2008

As Partidas

Em todos os jogos era assim, quase que propositalmente chegava atrasado meia-hora, ou até mesmo perdia o primeiro tempo todo, e ao se sentir inflamado por aquela sensação que paira no ar abstratamente em dia de jogo, se dispunha a correr como se já não tivesse perdido vários minutos do embate futebolístico.

O motivo de seus constantes e inevitáveis atrasos talvez fosse um impulso inconsciente de querer sentir-se solitário naquele enorme corredor ocupado por tantas pessoas nos horários de entrada e saída dos jogos (já que conscientemente, desejava assistir o jogo inteiro). Mas naquele momento, aquela passagem estendia-se vazia e quase plenamente silenciosa, a não ser pelo som dos passos afobados deste peculiar espectador e do barulho abafado daquela multidão concentrada no lado de dentro daquele estádio.

Normalmente ao chegar, passava uma parte do jogo nas cadeiras brancas (quando estavam liberadas), sentado e contemplando aquela pacata atmosfera formada por alguns torcedores sozinhos, pensativos, degustando a partida serenamente; lá ficavam solitários senhores orientais, jovens empresários recém saídos de seus expedientes, devidamente vestidos com suas gravatas, ternos e sapatos engraxados e famílias inteiras unidas no suporte àquele time mágico.

Depois, retirava-se para as cadeiras amarelas, onde uma pequena massa é formada por torcedores incendiados que apóiam o time incondicionalmente, na vitória e na derrota, acrescentando ao jogo aquela encantadora passionalidade coletiva.

Vira vários péssimos jogos neste estádio e mais de uma vez saíra muito decepcionado, com seu estado de espírito extremamente contrastante com a aura magnífica que aquele campo (com tantas venturas históricas acumuladas) exalava. Por outro lado, poderia afirmar facilmente que passara algumas de suas noites mais lúdicas ali, onde vivenciara epopéicos capítulos da mitologia constantemente renovada que este time possui. Vira jogos exuberantes em sua importância, mas também partidas teoricamente não tão relevantes mas que transformavam-se em heróicas por suas grandes adversidades.

E foi justamente numa derrota, a maior que sua geração presenciara, que aquele torcedor de fato entendeu a complexidade e totalidade da existência daquele time; compreendeu o corpo, mente e alma deste.

Ali, enquanto corria sozinho, lembrou-se com grande pesar e melancolia daquela fatídica partida. E não conseguiu evitar de emocionar-se mais uma vez, com aquela equipe que, mais do que qualquer outra, preenche com tamanha desenvoltura poética, com um colossal potencial histórico (no sentido mais lírico do termo) e sua irresistível beleza subjetiva, o gigantesco abismo entre a glória da vitória e a tragédia da derrocada.

Setembro 9, 2008

Carta de Lamento

Segue um emocionado relato de um caro amigo, descrevendo um momento em que eu também me fazia presente.

Carta de Lamento

“Bem, meu nome é Márcio, conhecido como Puna.

E é com muito pesar que escrevo esta carta, mas se trata da trajetória de um vencedor: meu Tempra SW.

* 1995 – 2007

Nascia em 1995 o Tempra SW verde, na época eu tinha 11 anos.

Praia, estradas, clubes, festas; tudo este carro presenciou, junto comigo, foi ele que me levou pelas ruas para comemorar minha aprovação no vestibular, era ele que levava 15 pessoas quando faltava vaga nos outros, foi ele…

Mas como todo ser, o Tempo também chegou para ele; uma mangueirinha, uma bomba de freio, uma borrachinha pra marcha, as janelas não abaixavam mais, o porta-malas já não trancava.

Mas lá ia o grande Tempra SW, o mais famoso de Belém-PA.

Na tarde de 27 de julho de 2007, estava ele levando meus amigos do Rio de férias, com todo o peso de sua idade, rodando a manhã inteira. À tarde, após o almoço, meu Tempra, meu querido Tempra faria seus últimos metros de vida.

Entrei junto com meus amigos e fomos saindo. Pouco mais de 100 metros depois, ali na Antônio Barreto entre a 14 de Março e a Generalíssimo, comecei a sentir um cheiro de queimado, como se o carro soubesse.
Uma fumaça preta começou a sair pela ventilação, dobrei a esquina e o carro deu seu ultimo suspiro, morreu, sem estancada, sem barulho, morreu…

Quando fui encostando, a fumaça preta subia como se levasse uma história.

No momento em que puxei a alavanca para levantar o capô, uma explosão!

Pânico geral, caí pela calçada, meu celular para um lado, meu óculos para o outro e meu chinelo na vala, uma labareda de fogo tomava a parte do motor.

Desesperado tentei apagar o fogo, sem sucesso, com o extintor que fica debaixo do banco. As pessoas em solidariedade tentaram me ajudar com seus extintores, também não conseguiram. Um pessoal do posto de gasolina vinha com baldes de água, eu no meio da fumaça tentava salvar não só meu carro, mas ele, o Tempra SW 1995, um membro da família, uma história.

Sem mais saber o que fazer, sentei na calçada em prantos vendo meu querido carro tomado pelas chamas.

Ao longe, eu via seu pára-choques derretendo, pneu, retrovisores.

Lá ia meu Tempra SW 1995, subia com a fumaça a história de um carro vencedor, um carro para poucos, um carro para a vida.

Parei no hospital e mesmo tomando 30 minutos de Oxigênio, até agora me falta ar para sair de casa e ver um grande vazio na garagem.

Adeus meu carro, adeus Tempra SW, adeus o melhor carro do mundo.

Depois de 5 Minutos apagando o Fogo, eis o diagnóstico dos bombeiros:

- ‘A peça de metal que sustenta o capô caiu, encostou na bateria e causou curto-circuito.’

Um curto-circuito, uma parada cardíaca talvez.

Que seja, obrigado Tempra SW por um dia existir, você foi e será sempre sinônimo de carro bom ! “

Setembro 3, 2008

Dois Finais (E uma continuação, por enquanto)

1912

Foi inaugurado em Belém um cinema de rua, bem ali, na Campina, em frente à Praça da República, de frente para o majestoso Theatro da Paz.

Com suas lotadas sessões e sua luxuosa decoração (que incluía detalhes de mármore e lustres de cristal), o Cine Olympia fazia das noites daqueles burgueses ébrios pela fartura econômica do ciclo da borracha, um verdadeiro esplendor republicano.

16/02/2006

Não costumava ir ao cinema às quintas-feiras, pois era mais barato às quartas (quando aproveitava para enfrentar a chuva em sua solitária procura por filmes pouco requisitados), e quando tinha dinheiro preferia ir aos finais de semana (quando gozava de companhia).

Mas lá estava ele, naquela enorme fila para ingressos. Era a última sessão daquele dia, e talvez fosse a última que iria ver naquele recanto, pois já estava selada a sentença daquele cinema, que após 94 anos de serviços prestados à sétima arte teria sua porta de vidro fechada por tempo indefinido, até Deus sabe quando (Ele provavelmente estava decepcionado, pois a venda do local para uma igreja universal havia sido descartada pelo proprietário).

Sobre sua cabeça repousavam as finas gotas daquela fraca garoa, que acariciava os cabelos de todos que não conseguiam se aglutinar no abrigo da entrada do cinema.

Passava pela sua consciência remotas lembranças de seus momentos naquela gigantesca sala escura: dos filmes que lá assistiu e gostou (os que odiou também); da vez que faltou aula para prestigiar a estréia do último episódio de sua saga de ficção científica favorita; e principalmente, recordava-se, com certa melancolia até, da imagem de si mesmo sendo levado até lá no ápice de sua infância pelo seu paciente pai, que abria mão de seu gosto pessoal para acompanhar o filho e seus pequenos companheiros em espalhafatosas viagens hollywoodianas.

Quando se encontrara com seus amigos para ir presenciar aquela histórica sessão cometeu o erro de achar que seria fácil conseguir um ingresso na hora, mas logo viu que enganou-se redondamente. Ao chegar, se deparou com um grande tumulto e uma  forte perspectiva de fracasso, que acabou por se concretizar naquele momento em que o funcionário surgiu de dentro da sala e dirigiu-se para os inconformados sem-ingresso:

-”A sessão está encerrada!”

A desolação se assolou sobre aquela pequena massa, que logo começou a esbravejar, e num lampejo coletivista esboçou uma pequena revolução cinéfila com cantos e palavras de ordem. Para contornar esta situação o gerente fez o que um bom político-estrategista faria, consumiu o ato revolucionário antes que o povo a fizesse.

E assim, a porta foi incondicionalmente aberta, para o delírio de todos.

Correu com seus amigos, garantiu um bom lugar no meio do corredor (já que todos os lugares oficiais estavam ocupados), e assistiu o cansativo filme um pouco incomodado com o frio que sua roupa parcialmente molhada e o ar-condicionado lhe presentearam.

2008

O Cine Olympia, agora espaço municipal Cine Olímpia, defende o título de cinema de rua a mais tempo em atividade no país. E em algumas madrugadas sua majestosa sala exibe sessões gratuitas de filmes franceses, abrigando jovens universitários que parecem não se incomodar com o cheiro dos indigentes que os acompanham em sua empreitada noturna.

*01/09/2008 – Rio de Janeiro

Neste dia, às 00:00, foi rodado “Trinta Anos esta Noite” de Louis Malle, no Cine Paissandu.

O famoso cinema de rua remanescente da década de 60 completaria 48 anos de atividade em dezembro, porém terá suas sessões suspensas por tempo indeterminado, tendo como o (por enquanto) último e derradeiro suspiro aquela lotada sessão dupla de Malle.

Agosto 28, 2008

A Primeira Chuva

Acordou e sentiu o balanço do ônibus, já havia escurecido.

Olhou pela janela e notou a falta de iluminação na rodovia, a visão dela a percorrer seus olhos remeteu-lhe ao tempo em que contemplava amedontrando  aquela mesma escuridão, mas do lado de fora desta, na rua iluminada que cortava esta estrada e que ficava a alguns passos de sua antiga casa.

Pelo mérito de sua lerdeza aliada à intransigência do motorista, acabou por saltar bem depois de seu destino inicial, a algumas quadras da rua no qual deveria ter descido. Logo após de ter pego sua mochila e do ônibus ter prosseguido seu curso lhe abandonando à solidão daquela rua mal iluminada (mas já não mais imersa em escuridão total), sentiu a primeira gota da primeira chuva que se anunciava naquela sua breve estada ali.

Se deixava tocar pelas chuvas de quase todos os lugares que conheceu, pois acreditava que cada cidade possui sua própria chuva e os sentimentos que ela traz consigo.

Desde pequeno admirava-se com a daquele lugar, nem conseguia lembrar de todos os pequenos (e agora agradáveis) momentos que passou ou coberto por ela, ou protegido e amparado enquanto a contemplava. Aquela chuva acarretava uma brusca e muito intensa metamorfose no ambiente. Sem dar nenhum sinal, invadia o céu, atacava com suas possantes partículas de água o asfalto, as calçadas, os telhados das casas, as almas desavisadas, as antenas parabólicas, os carros, os postes (acesos em pleno luz do dia); interrompia o fluxo de nossos dias já ajustados àquele intervalo forçado e quase diário de nosso cotidiano. Carregava com ela uma infinitude de sensações, proporcionadas por aquele céu cinza, aquele cheiro de terra molhada que antecedia o da água vaporizada pelo calor do asfalto, e por um barulho uníssono das grossas gotas de chuva farfalhando nas folhas das árvores (toda aquela aquarela esverdeada que cercava sua rotina nos dias de criança era, sem dúvida, um outro fator do qual sentia intensas saudades).

Após constatar que era impossível chegar à sua estadia de um outro jeito que não fosse absolutamente encharcado, desistiu de correr, e conformado, começou a caminhar sem nenhuma pressa, tentando sentir cada uma das milhares de gotas a se chocar no seu corpo. Chegou a um ponto de ônibus onde se abrigou e continuou a se deliciar com o cair da chuva e com tudo que ela o fazia lembrar e sentir.

Quando um garoto de bicicleta apareceu a caminho de seu curso noturno e estacionou neste ponto, juntou-se ao recém-chegado à cidade na espera do fim daquela chuva. Trocaram amenidades e, ao ver que a chuva se tornava menos torrencial, o estudante saiu e aconselhou o seu companheiro de abrigo a tomar cuidado, pois já havia sido assaltado quatro vezes ali, naquele horário.